30 abril, 2015

[Resenha Crítica] A comissão chapeleira

Encomende um segundo coração



Título Original: A comissão chapeleira
Autora: Renata Ventura
Gênero: Literatura Infanto-juvenil.
Editora: Novo SéculoAno da publicação: 2014.

Sinopse: "Atormentados pelos crimes que cometeu em seu primeiro ano como bruxo, tudo que Hugo mais queria naquele início de 1998 era paz de espírito, para que pudesse ao menos tentar ser uma pessoa melhor. Porém, sua paz é interrompida quando uma comissão truculenta do governo invade o Rio de Janeiro, ameaçando uniformizar todo o comportamento, calar toda a dissensão, e Hugo não é o único com segredos a esconder. Para combater um inimigo inteligente e sedutor como o temido Alto Comissário, no entanto, será necessário muito mais do que apenas magia. Será preciso caráter. Mas o medo paralisa, o poder fascina, e entre lutar por seus amigos, ou lutar por si próprio, Hugo terá de enfrentar uma batalha muito maior do que imaginava. Uma batalha com sua própria consciência."

É difícil escrever sobre "A comissão chapeleira". Poderia defini-lo como um livro de fantasia que fala sobre política, subversão, a índole humana, ação e reação e outras coisinhas, utilizando bruxos adolescentes, um governo à la ditadura, um vilão daqueles, folclore e cultura afro-brasileira em 655 páginas. Mas isso não transmite toda a emoção e o idealismo contidos no livro.

A estória continua recheada da nossa cultura, encaixando lendas famosas e também mais regionais de maneira criativa na trama. Além da abordagem sociocultura, a narrativa contém temática política, mais óbvia na primeira parte do livro que apresenta até mesmo discursos partidários (fictícios,claro).

Aparecem novos cenários. O sincretismo religioso tão característico do Brasil ganha destaque na escola de magia de Salvador, o Instituto Paraguaçu, onde orixás e santos abençoam os estudantes. A escola baiana é tão incrível quanto a Korkovado, apesar de muito diferente: estabelece uma convivências mais harmônica com os azêlomas/mequetrefes (não-bruxos), a magia ensina é “espiritualizada” e merece pontos pelo memorável par de diretores que tem.

Também somos apresentados a Mefisto Bofronte, o vilão da série e olha… O cara promete (não por acaso, a autora já pretende escrever um livro só sobre ele depois que os outro três livros da série forem publicados). Bofronte é imponente, enigmático, inteligente, cruel e sedutor, confunde a todos e principalmente o Hugo em quem desperta sentimentos conflitantes de admiração e culpa. Hugo está lidando com as consequências de seus erros, tentando ser uma pessoa melhor e sente-se culpado por admirar alguém como o Alto Comissário Bofronte.

O desenvolvimento de Hugo, do primeiro livro pra cá, é notável e continua ao longo de ACC, assim como quase todas as personagens.  Conhecemos mais sobre o passado e as características delas, o que as torna mais complexas do que aparentavam ser. Espero que continue assim. 

Gostaria de falar de uma personagem em especial: o Capí. Ele é de uma perfeição que beira a divindade, concentra em si todos os ideais presentes na série até agora e suspeito que isso não seja à toa, o Capí tem sido muito importante para o crescimento do Hugo e para o enredo em geral, portanto acho que ainda vamos descobrir muito sobre ele.

Para terminar, vamos falar um pouco sobre a escrita da Renata. Eu particularmente estou amando a série (nem deu pra perceber né?), o modo como a autora escreve tem muito peso nisso. Não só pela criatividade demonstrada, mas pela maneira desenvolta com que os fatos são apresentados, misturados àquele suspensinho que não te deixa largar o livro, os toques de humor na hora certa e a pela forma redondinha com que tudo se encaixa. Quando peguei o livro/tijolinho para ler pensei que encontraria várias partes de enrolação desnecessária, mas não. Tudo teve importância para a trama e o que não foi usado aqui provavelmente o será em um próximo livro, como aconteceu com algumas coisas de A arma escarlate. As explicações para como as coisas acontecem e se resolvem são boas, geralmente não deixam aquele ar de “não me convenceu”. Só encontrei uma coisa que ficou totalmente perdida na trama... uma reverência a HP em dado momento, meio sem pé nem cabeça.

Embora tenha achado o primeiro livro mais cruel, por toda a realidade aplica sob à ficção, este volume também nos faz refletir. Mesmo que seja para discordar do que está sendo dito.  A comissão chapeleira é um livro emocionante, que vale a pena ser lido. Mas eu aviso: Caso tenda a se envolver com as personagens e sofrer junto a elas, leve em consideração os comentários da capa e encomende um segundo coração.

+ Reflexão: Para inspirar

Com este livro, fica claro como água que a Srta. Ventura não quer apenas proporcionar uma divertida leitura aos jovens deste país, mas também inspirá-los a pensar e agir de forma diferente. E por que não aceitar esse empurrãozinho? Se concordar com algo expresso no livro, procure mais sobre isso, leia, pesquise! E se não concordar, faça o mesmo!

"Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão."  Paulo Freire

+ Quotes do livro A comissão chapeleira:
“[...] A gente tem vergonha da nossa cultura, dos nossos costumes, da nossa história… por quê?! Porque não nos conhecemos! Não nos entendemos! Que país é esse que não entente a si mesmo?! Que despreza a si mesmo?! Como a gente pode querer se tornar um país melhor se a gente nem entende o que a gente é?! Só quem se entente pode se transformar! Só quem se entende consegue separar o que é defeito do que é qualidade, e então agir para anular o defeito e multiplicar a qualidade! Quem critica tudo que é feito no Brasil, não entende o Brasil. E quem não entende o Brasil, nunca poderá melhorá-lo.” Átila Antunes

“São os sonhadores que mudam o mundo.” Caimana

“ É a ingenuidade que permite que uma pessoa acredite na possibilidade de mudança; de transformação para melhor. Aqueles que não acreditam, dificilmente mudarão alguma coisa. O pessimismo nunca impulsionou a humanidade para a frente.” Capí

+ Avaliação:

06 abril, 2015

[Resenha Crítica] A arma escarlate

Para a magia e além!



Título Original: A arma escarlate
Autora: Renata Ventura
Gênero: Literatura Infanto-juvenil.
Editora: Novo Século
Ano da publicação: 2012.


Sinopse: "O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio, durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, um menino de 13 anos descobre que é bruxo. Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e enfrentar o bandido que está ameaçando sua família. Neste processo de aprendizado, no entanto, ele pode acabar por descobrir o quanto de bandido há dentro dele mesmo."


Se você já leu Harry Potter, ou pelo menos assistiu aos filmes, deve ter imaginado - uma “vezinha” que seja-  como seria uma escola de magia e bruxaria aqui no Brasil. Mas você certamente não chegou perto do que Renata criou. Ela não nos deu uma escola, mas cinco.


A estória se passa na escola do Rio, a “Notre Dame du Korkovadô” ou Nossa Senhora do Korkovado mesmo. Hugo acaba de receber sua carta e de cara percebemos que ele não é o herói que esperávamos, muito diferente do bruxinho do Reino Unido. Aliás, não espere muitas semelhanças a Hogwarts para não se decepcionar, a Korkovado não é nem de longe tão perfeitinha. A Srta. Ventura soube criar um mundo da magia só nosso (com referências nos livros de J.K. Rowling muito divertidas de se perceber), bem brasileiro mesmo, cheio de encantos e defeitos. Uma quantidade considerável de defeitos diga-se de passagem. O próprio Hugo se decepciona com a escola ao perceber suas deficiências e eu também, contudo acabamos nos apaixonando por ela, não tem jeito. 

A Korkovado é parecida com escolas que eu mesma estudei (sem a parte da bruxaria, claro), os professores e alunos são em muitos pontos típicos das escolas brasileiras, assim como a própria dinâmica da escola. A magia ensinada está repleta do nosso folclore, com feitiços em Tupi e línguas africanas. Esses são exemplos do que torna A arma escarlate um livro vivo, que valoriza a cultura brasileira.

Voltemos a falar no Hugo... há momentos em que eu quis socá-lo. Oh garoto difícil! Mas dou um desconto por tudo que ele passou, não que ele mesmo não seja o culpado por uma boa parte da encrenca em que se mete durante a estória. Hugo é herói e vilão. Juguei as atitudes dele, mas depois me perguntei se não faria o mesmo se tivesse que enfrentar o que ele enfrentou. Os inimigos do Hugo, são reais, tirados diretamente do nosso mundo como muito do que ele vivência.

A verdade é que o enredo é emocionante (e viciante), fantasia e realidade se chocam de maneira caótica. Somos levados para além do deslumbre da magia, é impossível não refletir sobre moral, preconceito, os problemas sociológicos do nosso país e até sobre sua história! Assuntos sérios mesmo.


Tudo isso é tempero com uma dose de humor gerada pelas personagens, das quais eu gostei de quase todas. Exceto aquelas que são propositalmente desprezíveis. Há um grupinho de jovens bruxos excêntricos que ajuda Hugo a se integrar ao mundo da magia que me lembra muito os Marotos… ponto pra Renata! O desenvolvimento das personagens e dos fatos durante o livro é bom, cria um leve suspense instigante. O livro é narrado em terceira pessoa, outro ponto positivo pra quem gosta de ir além da visão do protagonista.


A arma escarlate superou em muito minhas expectativas, uma leitura recomendável.


+ Reflexão: Made in Brasil

É fácil gostar de um livro cheio de coisas fantásticas e agradáveis aos olhos, difícil é apreciar algo que te tira da sua zona de conforto. E Retana fez questão de fazer isso. Em certo momento me perguntei se ela não estava exagerando, afinal são crianças de 13 anos protagonizando cenas fortes, mas concluí que não. A realidade é essa, seria hipócrita não mostrá-la. A autora resolveu que falaria em seu primeiro livro sobre aquilo que precisa ser dito, num livro de fantasia voltado para adolescentes e eu a admiro sua ousadia.
“Palavras são nossa inesgotável fonte de magia”, Dumbledore diz algo assim em um dos livros e eu concordo plenamente. Um dos encantos das palavras é transmitir estórias que nos fazem aprender com pessoas que não existem, em situações que nunca vivemos. Tais palavras, as vezes, nos fazem enxergar coisas que nós ignorávamos, em outras vezes, nos leva a refletir sobre nós mesmos. Bons autores usam e abusam dessa magia, acho que Renata Ventura quer entrar para esse clube.

+ Quotes do livro A arma escarlate:

“-Você deveria tentar uma vez. É muito bom.
-Tentar o quê?
-Fazer algo pelo simples prazer de fazer. Sem pensar em recompensa.” Capí


“O erro de um sistema que treina seus filhos para agirem por medo da punição, não pelo desejo de manter a harmonia. No momento que a autoridade desaparece, o sistema se autodestrói.” Caimana


“[...] só agora começara a sentir alguma coragem verdadeira. Era a segurança que vinha de saber que estava fazendo a coisa certa.” Narrador

+ Avaliação: